(E esperando não levar da cabeça do maradona, o mais carismático doente da bola blogosférico.)
A ideia actualmente muito repisada de que o futebol é um espectáculo provém da confusão entre espectador e adepto. O futebol, como a arte, visa despertar em quem assiste uma resposta emocional. Ora, essa resposta é dada pelo adepto e é justamente isso que o distingue do espectador, que é um ser racional, organizado, e que está indisponível para responder emocionalmente.
“O espectador consome o espectáculo-mercadoria, é um cliente, mas o adepto forma parte da cerimónia, acompanha o acontecimento: é um acólito. Para o espectador, a duração do jogo é uma opção com a qual pode “perder” ou “ganhar” o tempo. O espectador acaba quando acaba o jogo. O adepto, pelo contrário, é uma extensa rede projectando-se antes e depois do encontro. O adepto não passa a tarde, precede-a, sucede-a, absorve-a, suporta-a”. (...) Não falta quem pense que o futebol é um fonte de prazer, e é, mas esquece-se quase sempre que ele é também motivo de desgosto e padecimento, o que obriga o adepto a oscilar permanentemente entre a agonia e o êxtase. Melhor seria dizer que ele é uma fonte da mais intensa vida sensorial e afectiva.
Muito justamente acusado de ser um trânsfuga da construção edificante, o adepto é um caçador de emoções que foge da existência ordinária à procura da intensidade sensorial, ou seja, da verdadeira vida. Ele ama desmedidamente porque todo o amor concede um acréscimo de vida e ao menos a ilusão de que por ele se salva o tempo. (...)
Esta desordem amorosa do adepto é também transfiguradora. Ela transforma seres vulgares em seres de fuga. Há quem diga que os adeptos, com a sua imaturidade alvoroçada, parecem crianças que fugiram de casa. É verdade: (...) Ele recupera as sensações e os deslumbramentos das primeiras idades, torna-se um ser imaculado, já não corrompido pela usura do mundo. Há um evidente sentido de festa em redor dos jogos, um alarido peculiar feito de uma mescla de músicas arruinadas ou então de cânticos rudimentares inteligíveis que na sua toada repetitiva e primária lembram lenga-lengas infantis, enquanto o rufar sincopado dos tambores das claques fornece ao ambiente o ritmo jâmbico do bater do coração materno no útero.
Álvaro Magalhães, História Natural do Futebol