abril 01, 2004

100 ANOS DE JACOBS

Posted at abril 1, 2004 01:00 PM in Showblitz .

É verdade. Não falei aqui do centenário de Edgar Pierre Jacobs. Falta minha, motivada pela crença que toda a gente falaria disso. Afinal enganei-me. Fora o DN e o JN e o bravo Beco de Imagens, a efeméride foi largamente ignorada. Para me redimir do erro, deixo aqui alguns links interessantes: a página do centenário, a página dos fãs do Olrik e um ensaio sobre a obra (que sabemos ser bom porque tem expressões como "Gérard Lenne descreveu o objecto estético e ético jacobesiano como 'hiperrealismo assente na obsessão do pormenor'".

Curiosamente neste assunto tenho uma virulenta e intransponível discordância ideológica com o pessoal do Barnabé. O Pedro Oliveira compara depreciativamente Pratt com Jacobs. Ora fora o talento de ambos para criar ambientes não vejo o que possa ser comparado. Jacobs era o desenhador da ordem, das grandes urbes europeias, das personagens eminentemente racionais, civilizadas, que trabalham para o sistema para repor a ordem e a estabilidade. É o desenhador da linha rigorosa, do texto maníacamente detalhado e da narrativa minuciosamente planeada.
Pratt, pelo contrário, é o desenhador da anarquia das paixões, dos grandes espaços inóspitos de África e da Ásia, das personagens intuitivas, inconformadas, sem senhor nem lei, que procuram algo que não sabem se existe só pelo gosto de procurar. É o desenhador de linha fluidas, texto esparso e narrativa errante e elíptica.
As diferenças vêem se claramente no amigo psicótico de Corto Maltese, Rasputin. Pratt desenhou um álbum inteiro (A Casa Dourada de Samarcanda) de Corto a tentar salvar o amigo da prisão. Jacob certamente teria desenhado um álbum com Blake e Mortimer a tentar meter Rasputin na prisão.

E para concluir de vez, aqui fica...

ENTREVISTA DE VASCO GRANJA A E.P. JACOBS (1972 - excertos)

V.G. - É curioso ter escolhido uma das ilhas dos Açores como cenário de O Enigma de Atlântida. As personagens portuguesas que participam nesta história, bem como a paisagem, são perfeitamente fiéis.
EPJ - Oh, sabe lá, tive tanta dificuldade em reunir documentação para essa história! Hoje teria sido mais fácil... E esta história deveria ter começado de maneira diferente, com discos voadores... Mas um colega meu acabara de apresentar uma história onde havia discos voadores e eu não quis navegar nas mesmas águas. (...)

EPJ - Daquilo que sei do vosso país, tenho a impressão que o povo português é corajoso... Gosto muito dos pequenos mosaicos feitos em Portugal.
VG - Refere-se aos azulejos?
EPJ - As casas são decoradas com azulejos de cores diferentes, não é? O conjunto deve dar uma impressão de alegria, não?
VG - Gostou de visitar os Açores?
EPJ - Sim, fiquei muito impressionado. Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a preparar O Enigma de Atlântida. A cratera das Furnas deixou-me uma profunda impressão. Na água podem observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso. Verifica-se perfeitamente que os Açores estão situados no ponto ideal para servirem de ligação entre a Europa e os Estados Unidos. Se a Atlântida existiu (o que é perfeitamente possível e eu continua a acreditar em tal facto), julgo bem que os Açores é tudo o que resta do continente desaparecido. Estas ilhas são muito atraentes do ponto de vista turístico e parece-me que há muita coisa a fazer neste sentido, embora eu reconheça que o turismo é uma arma de dois gumes... Penso igualmente numa zona perto de Lisboa que me agradou particularmente, numa pequena montanha plena de verdura e de frescura...
VG - Sintra, não é verdade?
EPJ - É isso mesmo. É um sítio verdadeiramente esplêndido! Gosto também muito dos pescadores portugueses, da sua maneira de se vestirem e dos barcos com motivos decorativos. Nota-se neles uma acentuada reminiscência do passado. (...)
VG - Qual é o seu método de trabalho?
EPJ - Trabalho muito lentamente e sem ajuda de qualquer colaborador. Gosto do trabalho feito com rigor, o que exige, portanto, bastante tempo para reflexão. As minhas histórias são longamente amadurecidas. Não me interessa produzirt em quantidade, pois o que me preocupa é a qualidade. (...)
VG - Mora num belo local...
EPJ - Esta casa situa-se precisamente no limite do do campo de batalha de Waterloo. As primeiras escaramuças foi aqui que se efectuaram. Há um monumento de um certo oficial francês que faleceu em combate neste sítio. Tudo nesta zona ressuma recordações do passado. Alemães, franceses e ingleses empenharam-se em duras batalhas nesta planície, que sempre me impressionou, mesmo quando ainda não habitava aqui. É uma das grandes batalhas da História e decidiu, num certo momento, a sorte da Europa. Claro, agora o turismo está em vias de tudo modificar... Mas em certas noites de lua cheia, quando passeio pelo campo, julgo escutar os lamentos dos sessenta mil soldados que aqui sucumbiram. Não sou romântico mas esta atmosfera não deixa de me impressionar. (...)
VG - Voltando à BD, eu gostava de saber, Jacobs, como se documenta para as suas histórias. Por exemplo, para a Marca Amarela.
EPJ - Na altura em que eu preparava A Marca Amarela decidi que devia deslocar-me a Londres para ali apreender a atmosfera local indispensável À elaboração dessa história. Creio que fui o primeiro, pelo menos na Bélgica, a tentar fazer em BD qualquer coisa de sólido. Em vez de imaginar cenários fantasistas como no teatro, julgo ser preferível apresentar o fundo real em que as minhas histórias se desenrolam. É meu desejo construir paredes sólidas, que resistam ao tempo. Tenho necessidade do realismo, senão sou incapaz de trabalhar em temas fantásticos. Bem entendido, a Inglaterra não fica longe daqui. Espantoso foi o facto de eu lá ter ido procurar nevoeiro e encontrar um sol esplendoroso, que se manteve durante algum tempo. (...)
VG - Consagra muito tempo à planificação das suas histórias?
EPJ - Faço uma planificação muito rigorosa. Elaboro toda a história página a página. À medida que o trabalho avança vou reflectindo no conjunto da obra, verificando se os diversos elementos se ajustam. O trabalho nem sempre decorre no mesmo ritmo. A inspiração varia de dia para dia e de hora para hora, por vezes, ela não aparece... Outras vezes, resolvem-se todos os os problemas num quarto de hora. Prefiro fazer uma planificação tão completa quanto possível, incluindo o texto, que deverá ser o mais próximo da perfeição. Tudo isto leva-me muito tempo. (...) O plano do meu trabalho é atacar a históra com um certo ritmo vigoroso, seguindo-se um período de acalmia, durante o qual dou as explicações necessárias. Depois, surge o impulso final. Alguns leitores aborrecem-se com as páginas de acalmia por nelas quase nada se passar. Mas são absolutamente necessárias. É por este motivo que ocupo uma posição má no referendo promovido pela revista Tintim. (...)
VG - Recordo palavras de Hergé escritas para esse prefácio: "É necessário ver o desenhador Jacobs em plena acção para nos apercebermos da aplicação infinita que ele confere aos seus trabalhos. (...) Ele é Mortimer, ele é Blake, ele é mesmo Olrik, por quem a sua secreta admiração não pode permanecer em segredo".
EPJ - Ele não lhe disse que eu me parecia como capitão Haddock?
VG - Não, isso não disse. Contou-me que era muito seu amigo...
EPJ - Mas Hergé costuma dizer que eu sou uma mistura de Mortimer e Haddock. É bom não esquecer que fui o seu primeiro colaborador e, a este respeito, Hergé conhece-me bem. Participei intensamente na criação dos seus primeiros álbuns...

Vasco Granja, uma vida... 1000 imagens

Comments

Durante anos adorava Jacobs pelas aventuras verdadeiramente fantásticas que descrevia; as de Pratt pareciam-me insípidas (não se salvava o mundo); depois quando cresci passei a gostar da poesia e melancolia das histórias de Corto Maltese em que nem sempre os maus são castigados nem os bons recompensados... aparentemente.

Posted by Parca at abril 1, 2004 01:41 PM

tens toda a razão. Não há comparação possível. Mas existe muito a mania de fazer esse tipo de confrontos. Alguns aão memso tiques geracionais. A mania de se confrontar o Timtim com o Asterix, por exemplo, é muito comum. Eu até acho que sou capaz de topar quem a vaia fazer e quem termina dizendo que gosta mais do Astérix. É uma questão de treino, depois nunca falha ";O)
Parabéns por te teres lembrado da entrevista do Vasco Granja

Posted by Zazie at abril 1, 2004 11:44 PM
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