Vejamos. Sempre houve terroristas e sempre se acabou por negociar com os terroristas, passados os primeiros tempos em que só a vingança e o extermínio deles até ao último eram admissíveis. Ontem mesmo, na sua tenda do deserto, o agora "honourable" Muammar El Kadhafi, responsável directo por Lockerbie - o maior atentado terrorista cometido na Europa -, recebeu o "premier" inglês Tony Blair, um dos arautos principais da guerra "antiterrorismo" contra o Iraque. Kadhafi está assim de volta ao "mundo civilizado" - uma história aliás antiga na diplomacia inglesa. Durante o mandato britânico na Palestina, no pós-guerra, um terrorista sionista fez ir pelos ares o Hotel King David, onde se acolhia o Estado-Maior inglês: anos mais tarde, o terrorista era primeiro-ministro de Israel e visita de Downing Street. E assim foi na Irlanda, antes de 1921, e no Afeganistão, na Índia, no Egipto, na Rodésia, em toda a parte onde em tempos flutuou a célebre ideia vitoriana do império universal. Depois de Dien-Bien Phu, os franceses não tiveram outro remédio senão negociar com os "terroristas" de Ho-Chi-Min, como o fizeram os americanos, vinte anos mais tarde, depois de terem caído na mesma armadilha que os franceses. E também nós, depois de 74, negociámos com os nossos "terroristas" - que depois passaram a ser vistos como heróis nacionalistas e irmãos lusófonos, antes de que alguns deles se tenham transformado em campeões da corrupção internacional, com os quais mantemos "estreitos laços de fraternidade" e compreensão. Há mais mundo no horizonte longínquo do que a nossa cansada vista alcança.
MST